Turismo Acessível e Inclusivo. Os segredos para uma viagem sem barreiras

Conteúdo do colunista Ricardo Shimosakai é Bacharel em Turismo pela Universidade Anhembi Morumbi / Laureate International Universities. Criador da Turismo Adaptado em 2004, também é o presidente da ABRATURA (Associação Brasileira de Turismo Acessível) e membro da Red Iberoamericana de Turismo Accesible, SATH e ENAT, organizações internacionais do segmento. Consultor especialista, palestrante internacional e docente em cursos de Pós Graduação e MBA da Faculdade Roberto Miranda. Organizou didaticamente diversos conceitos de acessibilidade e inclusão, que ensina em seus cursos online e repassa em sua destacada presença nos meios digitais.

Para ter uma ideia do panorama da acessibilidade, inclusão e o turismo, vamos ver alguns números. Segundo o IBGE, são 45 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, e segundo a OMS são 1 bilhão em todo o mundo. Ainda segundo o IBGE, são mais de 28 milhões de idosos no Brasil. Em média, a pessoa com deficiência viaja acompanhada de pelo menos 2 pessoas, e a acessibilidade é um dos principais itens que o turista com deficiência utiliza para escolher onde ir.

Pensando em resultados, podemos pegar o mercado automobilístico como exemplo, pois é um segmento que aposta na pessoa com deficiência como consumidor. Para ter uma ideia, em 2019 as vendas de carro em geral tiveram uma queda, porém nas vendas especiais para pessoas com deficiência, elas cresceram. Alguns alegam que o crescimento é devido às isenções que esse segmento tem direito, porém a lista de carros mais vendidos é em média de R$60.000, o que não é pouco, e serve de termômetro para ver o potencial financeiro desse público.

Agora falando em retorno para o mercado do turismo, locais que fazem um trabalho correto, pensando na estrutura física, nos equipamentos corretos, no atendimento adequado e num bom trabalho de marketing, todos relatam num aumento de público e retorno financeiro. O proprietário de um dos hotéis referência em acessibilidade no Brasil, relata que em 2015, recebeu mais de 4 mil pessoas com deficiência e o nível de ocupação passou de 60% para cerca de 90%.

Sempre enfatizo o meu conceito ACESSIBILIDADE FUNCIONAL. Seguir normas e cumprir as exigências da legislação, não garante a acessibilidade, pois muitas instruções são teóricas e sem comprovação prática. O resultado disso é que existem acessibilidades que não funcionam, ou funcionam somente para uma parte do público.

Eu recentemente me hospedei um hotel, e pedi uma cadeira de banho, pois é obrigação do hotel fornecer esse equipamento quando solicitado. São chamadas de ajudas técnicas, e incluem outros acessórios como campainha luminosa para surdos e cardápio em Braille para cegos. Mas o hotel só possuía uma banqueta basculante, que fica fixada na parede do chuveiro. A cadeira de banho é semelhante à uma cadeira de rodas com um assento de vaso sanitário.

Então eu fui conferir o Decreto n° 9.296/2018 onde constava “cadeiras adaptadas para o banho”. Ou seja, o hotel estava cumprindo a lei, pois esta realmente é uma cadeira adaptada para banho, porém não serve para todos, pois o assento é plano e duro, o que pode gerar graves feridas para quem senta nela, mesmo por alguns minutos. O assento da cadeira de banho é anatômico, o usuário também fica equilibrado e estável, e pode se locomover pois ela tem rodas. Então a cadeira adaptada para o banho não funcionou apesar de estar de acordo com a lei.

A maioria das pessoas, penam na acessibilidade pelo lado material, mas ela é mais do que isso. É claro que um projeto arquitetônico bem planejado e executado é importante, porém além da estrutura do estabelecimento e dos equipamentos adequados, como foi dito anteriormente, ter uma operação ajustada também faz toda a diferença.

E mais uma vez, trago um exemplo de uma ocorrência real que aconteceu comigo. Quando cheguei no hotel, o único quarto acessível estava ocupado por um casal de cegos. Há um problema de planejamento operacional, pois cegos não precisam do espaço que o quarto acessível oferece. Pessoas com deficiência física sim, precisam de espaço para transitar dentro do quarto. A acessibilidade que cegos e surdo precisam, é na comunicação, e esta pode ser arrumada para estar em qualquer quarto, não necessariamente no quarto acessível. Então o hotel tinha um quarto acessível, mas por falta de planejamento operacional, não funcionou.

Outro conceito que eu criei é o da ACESSIBILIDADE COLETIVA, onde eu chamo a atenção que, em muitos casos a acessibilidade é feita para uma ou poucas pessoas. Nos transportes, geralmente há lugar somente para uma cadeira de rodas, em vários hotéis só há um quarto acessível. Então como aplicar para as pessoas com deficiência, uma das grandes forças do turismo, que são as viagens em grupo?

Essa dificuldade eu passo desde quando eu era atleta, e jogava tênis de mesa adaptado. Há várias competições em diferentes destinos por todo o Brasil, porém os locais geralmente não tem infraestrutura para receber esse visitante, que apesar de ir com o objetivo de competir, não deixa de ser um turista, pois acaba precisando de hospedagem, transporte, alimentação e sempre acaba aproveitando para fazer visitas. São inúmeras modalidades paradesportivas, com centenas de competições e milhares de atletas. Isso já seria um público certo, pois as competições sempre acontecem, não é uma questão de escolha, e o atleta não desiste como às vezes faz um turista comum.

Como um bom exemplo de acessibilidade coletiva, eu cito minhas viagens à Alemanha, onde o turismo acessível e inclusivo é encarado com profissionalismo. Uma vez, estávamos em 6 cadeirantes e mais 8 acompanhantes. Para o transporte, havia um ônibus com uma plataforma elevatória, e o seu interior era feito com poltronas removíveis. Assim, você consegue ter flexibilidade entre deixar as poltronas ou abrir espaço para até 13 cadeiras de rodas, de acordo com a necessidade. Além disso, ficamos hospedados nos mesmos hotéis, cada um em seu quarto, e visitamos todos juntos os diversos atrativos turísticos.

Muito se fala em estabelecimentos e equipamentos, mas o atendimento também é fundamental. Muitas pessoas com deficiência, valorizam até mais, a forma como são tratadas do que a própria acessibilidade. Isso porque o atendimento toca diretamente na questão da hospitalidade, que é um dos princípios mais importantes do turismo. E o atendimento está em todas as situações, seja em maior ou menor intensidade. Além da satisfação de um acolhimento, um atendimento adequado também tem a ver com segurança.

Um dos trabalhos que realizei, com grande sucesso, foi no destino de Bonito, no Mato Grosso do Sul. É um destino de natureza, onde há inúmeras atividades de aventura. Na natureza, não cabe grandes intervenções de acessibilidade, pois isso descaracteriza o lugar. E quem escolhe esse tipo de destino, está disposto a ter experiências de modo mais rústico. Então, minha grande sacada foi capacitar os guias de turismo para atender o turista com deficiência de forma acolhedora, para que ele se sinta incluído, e também seguro, respeitando suas limitações. O resultado foi que, vários turistas declararam ser uma das melhores viagens que já fizeram.

Concluindo, a lógica é mais simples do que parece. Quanto mais pessoas você estiver preparado para atender com qualidade, mais o seu negócio vai crescer. E com a acessibilidade e a inclusão, num crescente na sociedade, mais cedo ou mais tarde você terá que enfrentar essas questões. A situação é a mesma para todos, e a diferença entre se dar bem ou não, é o modo como você encara a situação, uma oportunidade para um crescimento, ou um problema a ser solucionado. 


Conteúdo criado por Ricardo Shimosakai é Bacharel em Turismo pela Universidade Anhembi Morumbi / Laureate International Universities. Criador da Turismo Adaptado em 2004,  também é o presidente da ABRATURA (Associação Brasileira de Turismo Acessível) e membro da Red Iberoamericana de Turismo Accesible, SATH e ENAT, organizações internacionais do segmento. Consultor especialista, palestrante internacional e docente em cursos de Pós Graduação e MBA da Faculdade Roberto Miranda. Organizou didaticamente diversos conceitos de acessibilidade e inclusão, que ensina em seus cursos online e repassa em sua destacada presença nos meios digitais.

O conteúdo é de inteira responsabilidade do criador e não, necessariamente, reflete a opinião da Reed Exhibitions, organizadora do evento Equipotel.