“Uma das coisas menos perceptíveis sobre a hotelaria de luxo é a rapidez com que as coisas vão do extraordinário ao esperado”. A frase de Colin Nagy é um aforismo que me acompanha há um bom tempo. Nos últimos anos, graças à internet e às redes sociais, tal situação se mostra ainda mais preocupante para os hoteleiros já que os hóspedes, principalmente millenials, têm acesso ilimitado a todas as excepcionais práticas de serviço de todo o mundo.

E, quando me refiro aos profissionais da hospitalidade, não me atenho apenas àqueles da indústria de luxo. Isto porque, desde muito antes do capitalismo, bens e serviços inicialmente exclusivos de uma elite social e econômica acabam por influenciar os demais indivíduos de uma sociedade. Os produtos de alto valor agregado sempre desceram a pirâmide e determinaram novos padrões de consumo.

Se o segmento de viagens de luxo deverá movimentar US$ 919 bilhões até 2022, de acordo com o Global Wellness Institute, boa parte do valor virá das hospedagens. E, se as cifras enchem os olhos dos hotéis, também exigirão muita criatividade, além da excelência esperada. O mais importante é que todas as novidades serão incorporadas pela hotelaria upscale e midlescale meses ou poucos anos depois.

A maior prova do descompasso de tarifas e experiências na hotelaria moderna é observada no investimento que as grandes redes têm feito na categoria que se convencionou chamar lifestyle: a Accor com a Tribe e Mamma Shelter; o Hyatt com Andaz, Alila, Joie de Vivre e Two Roads; a Wyndham com a Trademark e o Hilton com  Canopy.

Tais marcas buscam aliar design sofisticado e visionário, experiências gastronômicas, tecnologia e serviços. Só que com tarifas bem menores daquelas praticadas pelos empreendimentos upscale e luxury.

Engana-se igualmente quem pensa que tais investimentos são exclusivos de grandes grupos. Como em um imenso efeito dominó, todos os demais atores da hospitalidade também são obrigados a renovar seus serviços e produtos. Os antigos e pouco charmosos albergues foram substituídos por hostels. Até a indústria da motelaria, no conceito brasileiro, precisou se reinventar e assumir novo posicionamento.

Tal cenário obriga também todos os fornecedores a reverem seus produtos. Um exemplo emblemático é o segmento de amenities. Além de trazer grandes marcas de luxo para os banheiros dos hotéis, o setor precisou substituir a oferta para pequenas pousadas e hotéis econômicos. Hoje o que se vê mesmo no chuveiro de hotéis pequenos parece vir de uma estante do Dufry.

Tampouco se aceita hoje ambientes monásticos nos quartos. Tendência de cores e formas influenciam a arquitetura dos novos equipamentos de hospedagem. Assim como o simples café da manhã. Estudos apresentados na ILTM Asia Pacific mostra que para os viajantes milionários, as experiências gastronômicas continuam em alta, começando com um café da manhã variado no hotel, um almoço com menu local, autêntico e seguro e um jantar elegante em um restaurante com estrelas Michelin.

Se o jantar em um restaurante estrelado continuará para poucos, a fartura do café da manhã e a autenticidade do almoço já são exigidos pelos clientes menos abonados. E a um cardápio bem preparado, soma-se louças e talheres bonitos e arrojados.

Ser hoteleiro sempre exigiu trabalho árduo, paixão e disciplina. Agora, às demais características, soma-se o talento de adaptar rapidamente o que é novidade hoje na hotelaria de luxo em commodity na hotelaria mais acessível amanhã.

Sobre Ricardo Hida

Formado em administração pela FAAP e pós-graduado em comunicação pela Cásper Líbero. Ricardo foi diretor da H&T Eventos, executivo de vendas na Air France-KLM, gerente de marketing na Accor Hospitality e diretor adjunto do Escritório de Turismo da França no Brasil. Eleito pelo Panrotas um dos 10 mais criativos executivos no turismo do Brasil, dirigiu a comissão de turismo da Britcham e Câmara de Comércio França-Brasil. Organizador do Fórum de Turismo de Luxo no Brasil, em sua 4ª edição, e do Fórum de Turismo e Espiritualidade.